O Celtic nasceu em 1887 numa sala de paróquia do East End de Glasgow, fundado pelo Irmão Walfrid, um marista irlandês, com um propósito escrito preto no branco: angariar dinheiro para alimentar os filhos dos imigrantes irlandeses mais pobres da cidade. Um clube criado para dar de comer acabou a dar outra coisa, mais difícil de medir: identidade. As riscas horizontais chegaram em 1903, os Lisbon Lions conquistaram a Europa em 1967, e pelo caminho o Celtic tornou-se um caso raríssimo no futebol, o de um clube que outros clubes, noutros continentes, decidiram imitar por vontade própria. Este artigo percorre essa descendência, peça a peça.

A filha mais velha do arquivo é escocesa e tem uma lenda deliciosa. O Buckie Thistle, de uma vila piscatória de sete mil habitantes na costa do Moray Firth, nasceu em 1889 e veste riscas verdes e brancas que, reza a tradição local, terão chegado numa doação de camisolas do próprio Celtic. O detalhe saboroso é que o Celtic só adotou as suas famosas hoops em 1903, o que faz da lenda um belo exemplo de como a memória dos adeptos reescreve a história à imagem do que ama. Verdade ou mito, os Jags entraram na Highland League em 1909 e são, há mais de um século, um Celtic em ponto pequeno.

A segunda história começa com Roma ainda a fumegar da guerra. Em 1944, um grupo de comerciantes do bairro Appio-Latino fundou a A.L.M.A.S., acrónimo de Appio Latino Metronio Associazione Sportiva, liderada por um contabilista e por um antigo jogador da Lazio, com um panda por símbolo e a matrícula 1620, das mais antigas do futebol do Lácio. E tomou uma decisão que traria o clube um dia a este arquivo: vestir de branco e verde à imagem do Celtic de Glasgow. A camisola do Almas que aqui vive mostra que, oitenta anos depois, a escolha ainda está de pé.

A terceira é a que deu origem a este site, e quem leu o artigo de abertura do blog já a conhece em parte. Mas há um detalhe da história do Celtic Castilla que merece este capítulo: o clube dos rapazes do Colégio Castilla, em Tetuán, não nasceu céltico. O primeiro nome foi Celta de Castilla, tributo ao Celta de Vigo, e as primeiras camisolas eram azul-celeste. Foi a Europa conquistada pelos Lisbon Lions que converteu Madrid: o Celta virou Celtic, o azul virou hoops, e assim ficou até hoje nas divisões regionais madrilenas.

A quarta atravessa o hemisfério. Em 1969, em plena era do apartheid, Norman Mathobisa e Victor Mahatane fundaram o Mangaung United em Bloemfontein. Em 1984 o empresário Petrus Molemela comprou o clube e batizou-o a partir do Celtic de Glasgow, de quem herdou o verde e branco às riscas. Nasceu o Bloemfontein Celtic, o Phunya Sele Sele, cujo palmarés modesto nunca impediu o essencial: os Siwelele, a bancada que canta do primeiro ao último minuto, fizeram dele um dos clubes mais amados da África do Sul. A prova de que a herança do Celtic nunca foi de troféus, foi de bancada.

E há ainda a peça que fecha o círculo por outro caminho: a Celtic Cross da O'Neills, uma camisola que não representa clube nenhum. Riscas verdes e brancas, uma cruz celta e a inscrição gaélica In Éirinn tá Neart, feita pela marca histórica do futebol gaélico e do hurling. É a homenagem da Irlanda à identidade que Glasgow devolveu aos irlandeses da diáspora: o padrão a regressar a casa, já sem precisar de clube para existir.

Quatro clubes em quatro países, mais uma camisola sem clube, todos a apontar para a mesma sala de paróquia de 1887. O Irmão Walfrid queria alimentar crianças. Acabou a vestir o mundo.

Aqui no Hoopster, esta descendência tem lugar cativo: cada nova peça céltica que chega é mais um ramo de uma árvore genealógica que começou no East End e ainda não parou de crescer.