Há nomes de clube que ficam onde nasceram. E depois há Sporting, um nome que emigrou. Saiu de Lisboa em 1906 e nunca mais parou: atravessou serras, oceanos e impérios, foi adotado por aldeias, paróquias, enclaves petrolíferos e comunidades de emigrantes, e chegou a este arquivo em dezassete versões diferentes, à data em que escrevo, espalhadas por quatro continentes. Este artigo é o mapa dessa diáspora, contado pelas camisolas.

Tudo parte do Sporting Clube de Portugal, fundado em Lisboa por José Alvalade com o avô a financiar o sonho. Mas o que o Sporting inventou, sem talvez o planear, foi um sistema de expansão único no futebol português: as filiais numeradas. Clubes autónomos, de terras pequenas e grandes, que pediam oficialmente o leão, as riscas e um número de ordem, como quem se inscreve numa irmandade.

As mais antigas do arquivo contam a geografia dessa irmandade. O Sporting Clube de Pombal é a filial número 10, batizada em outubro de 1922 com cerimónia à altura: um jogo frente ao Sporting de Tomar, a filial número 1, que serviu de madrinha, e um escudo que junta o castelo templário de Gualdim Pais ao leão de Alvalade. Um ano depois nascia a oitava filial na cidade dos lanifícios: o Sporting da Covilhã, que subiu à elite em 1948, foi quinto classificado em 1955/56 atrás só dos grandes e jogou a final da Taça de Portugal de 1957.

Depois o nome meteu-se num barco. Em dezembro de 1923 nasceu na capital de Cabo Verde a filial número 20, hoje Sporting Clube da Praia, três vezes campeão colonial antes da independência e um dos grandes da Várzea. Em 1925, no enclave que o petróleo tornaria famoso, a filial número 31: o Sporting de Cabinda, que a independência de 1975 rebatizou Petróleos de Cabinda sem nunca lhe despir as riscas, e que no século XXI voltou oficialmente à casa-mãe. Em 1926 chegava ao Oriente a filial número 25, o Sporting Clube de Macau, que adormeceu e renasceu duas vezes: em 1951 pela mão de António Conceição e em 2008 pela do filho, em memória do pai, com um título de campeão de Macau em 1991 pelo meio.

Em Portugal, a irmandade continuou a somar números. A 63ª filial joga ao lado de um escadório barroco de 686 degraus: o Sporting de Lamego, decano do desporto da cidade e nove vezes campeão distrital de Viseu. A número 132 nasceu nos Açores com uma história de cinema: o primeiro equipamento do Sporting Clube Ideal da Ribeira Grande atravessou o Atlântico de barco, enviado dos Estados Unidos por um emigrante. A 148 é de uma aldeia saloia de Mafra que respondeu ao início da guerra na Europa fundando um clube: o Sporting do Livramento, outubro de 1939, lema Atitude, Força, União. E a 143 prova que a irmandade também emigra: o Sporting Clube de Paris, fundado em 1983 no 13º bairro para fazer do desporto um motor de coesão da comunidade portuguesa em França.

Mas a diáspora do leão não se esgota nas filiais com número. Há os que escolheram o nome por pura devoção. O Sporting de Cabreiros, numa freguesia rural de Braga, veste-se à imagem de Alvalade desde 1932, como tantos homónimos que o Minho foi semeando. O Sporting Ferreirense foi fundado em 1955 pelo pároco da vila de Ferreira do Alentejo, um padre que também recolheu milhares de horas de cante alentejano ao lado de Lopes Graça e Giacometti. O Sporting de Guadalupe nasceu no mesmo ano na ilha Graciosa, dentro da sede da Filarmónica União Progresso, clube e banda porta com porta. O Sporting de Torres, de 1929, nem filiação tem, e fez do hóquei em patins a sua alma. E há os que nem portugueses são: na Calábria, o Sporting Corigliano é uma escola de futebol biancoverde premiada há mais de vinte anos consecutivos pela federação italiana, e em Silicon Valley o Santa Clara Sporting, fundado em 1971 por emigrantes portugueses, desenhou o escudo à imagem do de Alvalade e tornou-se um dos clubes juvenis mais premiados dos Estados Unidos, com centenas de jogadores em atividade.

E depois há o caso que não é um clube de futebol: o Sporting CP/Tavira, o nome que a equipa do Clube de Ciclismo de Tavira usou entre 2016 e 2019, quando o leão regressou ao pelotão ao fim de quase duas décadas. O parceiro algarvio é apontado como a equipa profissional de ciclismo em atividade ininterrupta mais antiga do mundo. Até em cima de uma bicicleta o nome viaja.

Postas lado a lado, estas camisolas contam uma história que nenhum museu oficial conta: a de um clube que se multiplicou por gente que nunca pisou Alvalade. Padres, filarmónicas, emigrantes, petrolíferos, ciclistas. O leão foi de todos eles.

Aqui no Hoopster, a diáspora do leão continua em aberto: há sempre uma filial, um homónimo ou uma devoção por descobrir, e o arquivo há de as vestir a todas.