Toda a coleção devia ter uma peça que a explique. A do Hoopster é uma camisola espanhola de 2000/01, corte polo, gola marinha, hoops verdes e brancas, feita por uma marca galega fundada por um ex-ciclista. No escudo, duas letras cruzadas: C.C. Celtic Castilla.

A história por trás dessas duas letras é o motivo de este site existir.

Em 1969, num bairro operário de Madrid chamado Tetuán, um grupo de rapazes geria um clube modesto com um nome perfeitamente normal: Celta de Castilla. Nesse ano decidiram mudá-lo. Não para algo mais comercial, nem mais madrileno. Escolheram o nome de um clube escocês que ficava a mais de dois mil quilómetros e que dois anos antes, numa tarde de maio no Estádio Nacional, aqui em Portugal, se tinha tornado o primeiro clube britânico campeão da Europa. O Celta de Castilla passou a Celtic Castilla, vestiu hoops verdes e brancas e nunca mais as largou.

Pensa no que isso significa. Ninguém obrigou aqueles rapazes de Tetuán a nada. Não havia marketing, não havia televisão por cabo, não havia réplicas à venda. Havia apenas um padrão de riscas horizontais verdes e brancas que tinha atravessado a Europa e se tinha alojado na cabeça de quem o viu. Foi uma escolha feita por amor, e é exatamente esse fenómeno que o Hoopster coleciona.

Porque este site não é uma coleção de camisolas de um clube. É uma coleção de camisolas de um padrão.

O padrão tem casas-mãe conhecidas. Em Glasgow, o Celtic, fundado em 1887 por um irmão marista para alimentar os pobres do East End, veste hoops desde o início do século XX. Em Lisboa, o Sporting fez do verde e branco uma identidade nacional. Mas o que torna o padrão fascinante não são as catedrais, são as capelas. É descobrir que ele aparece, vezes sem conta, nos sítios onde ninguém estava a olhar.

Aparece numa ilha do Atlântico, onde o Lusitânia de Angra do Heroísmo cose um açor e uma hortênsia às riscas. Aparece numa aldeia de Mafra, onde o Livramento leva ao peito a adega cooperativa que engarrafa o vinho da freguesia desde 1959. Aparece na província tailandesa de Prachinburi, guardado por um Hanuman de dentes arreganhados. Aparece em San Juan de Porto Rico, numa ilha onde o futebol vive à sombra do basebol. Aparece em Roma, onde o Almas, fundado em 1944, escolheu as hoops pela mesma razão dos rapazes de Tetuán: porque viu o Celtic e não conseguiu esquecer. Aparece em campos poeirentos da Puglia, em Mostaganem na Argélia, em Gdańsk na Polónia, num clube de râguebi a sul de Milão com um javali no peito.

À data em que escrevo, o arquivo cobre meio século de camisolas e cinco dezenas de países em quatro continentes. Nenhuma dessas peças foi escolhida por ser valiosa. Muitas custaram menos do que um bilhete de bancada. Foram escolhidas porque cada uma prova a mesma tese por um ângulo diferente: o verde e branco não pertence a nenhum clube, a nenhuma liga, a nenhum país. É uma língua. E como todas as línguas vivas, fala-se com sotaques.

Há regras nesta coleção, poucas mas firmes. A primeira: as riscas mandam. Horizontais de preferência, as hoops clássicas, mas o padrão aceita variações regionais como qualquer língua aceita dialetos. A segunda: a história vale mais do que o estado. Uma camisola match worn de um lateral da Prima Categoria italiana, com o número de couro sintético meio descolado, diz mais do que uma réplica imaculada em plástico fechado. A terceira: os pequenos primeiro. Os grandes clubes têm quem os arquive. O Porto Fuori de Ravenna, com a ótica da esquina no peito, não tem mais ninguém. É por isso que este arquivo passa mais tempo na Promozione do que na Liga dos Campeões.

E depois há a regra que não é regra, é consequência: cada camisola puxa a seguinte. Foi a procurar a história de um clube pugliese que apareceu o seu rival do outro lado da região, com o mesmo template da mesma fábrica de Parma. Foi a seguir o rasto do Sporting que a coleção chegou à Praia, a Macau, a Cabinda, a Paris. O padrão é uma teia, e este site é a tentativa de a mapear, ficha a ficha, com a época, a marca, o clube, a cidade e a história de cada peça documentadas nas duas línguas.

O Celtic Castilla ainda joga, nas divisões regionais de Madrid, com as mesmas cores que escolheu em 1969. A camisola que abre este texto está guardada aqui, entre uma peça de Alvalade e outra de Parkhead, que é exatamente onde ela sempre quis estar.

Aqui no Hoopster, é este o mapa que estamos a desenhar: o de um padrão que ninguém inventou sozinho e que já deu a volta ao mundo. Bem-vindo. As riscas são as mesmas em todo o lado. O que muda é a história de quem as veste.